Limite de Eddington
As equações de estabilidade podem ser resolvidas numericamente, mas vamos tratar aqui de modelos analíticos.
Polítropos são modelos para os casos em que a pressão em todos os pontos da estrela pode ser
escrita como uma função que depende somente da densidade. Nestes
casos específicos, como para gases degenerados, podemos calcular
analiticamente as relações entre pressão, massa e raio,
sem necessitar explicitar a geração e o transporte de energia.
Os polítropos são adequados para situações especiais, como no caso de anãs brancas e estrelas completamente convectivas, como no Ramo Gigante e Supergigante.
Em 1920, quando a geração de energia do Sol ainda não era bem entendida, Arthur Stanley Eddigton (1862-1940) notou que
uma aproximação politrópica poderia dar uma idéia da densidade e pressão dentro do Sol.
(Arthur S. Eddington, 1930, The Internal Constitution of the Stars, p. 188),
Quando vamos calcular modelos estelares, necessitamos de
valores iniciais de pressão central, temperatura central, e raio estelar, por exemplo.
Como podemos estimar estes valores? Em geral usam-se modelos
de polítropos para estes valores iniciais.
Quando discutimos a equação de estado
de um gás completamente degenerado,
não-relativístico,
obtivemos:
 |
(1) |
que é uma lei de potência com
.
Outra situação é para uma estrela
completamente convectiva,
com
.
Como
e
|
(2) |
Integrando-se,
obtemos
 |
(3) |
Se o gás for ideal,
e portanto
.
Como nesses exemplos,
se a pressão em todos os pontos da estrela puder ser escrita como uma função da densidade
somente,
, então a estrutura da estrela depende
somente das equações de equilíbrio hidrostático
e continuidade da massa.
Em particular, se a pressão em todos os pontos do interior
estelar satisfizer a relação
 |
(4) |
com K e n
constantes, a configuração é chamada de
um polítropo.
Para um gás ideal,
,
e
de uma estrela
completamente convectiva nos dá
Note que este é o mesmo expoente
do gás completamente degenerado, não relativístico.
As equações de equilíbrio hidrostático
e continuidade da massa podem ser reduzidas a uma equação
diferencial de segunda ordem, dividindo-se a equação
de equilíbrio hidrostático por
,
multiplique por
e, então, derivando-se em relação
a
os dois lados:
 |
(5) |
que é a equação de Poisson.
Se definirmos variáveis adimensionais
 |
(6) |
e
 |
(7) |
onde
é a densidade central e a constante
dada pela equação
![$ a = [\frac{(n+1)K\rho_c^{(1/n-1)}}{4\pi G}]^\frac{1}{2}$](img23.gif) |
(8) |
a equação de Poisson
(equação 5) pode ser escrita como
 |
(9) |
Essa equação é chamada de equação de Lane-Emden, em honra ao
físico americano Jonathan Homer Lane
(1819-1880), que derivou a equação do
equilíbrio hidrostático em 1869 e ao
físico suíço Robert Emden (1862-1940).
Modelos correspondentes às soluções dessa equação,
para um certo valor de n,
são chamados de polítropos de índice n.
A pressão será dada por
 |
(10) |
Se a equação de estado do material for a de um gás ideal,
com
 |
(11) |
então
 |
(12) |
e
 |
(13) |
com
 |
(14) |
e
 |
(15) |
Portanto, para um polítropo com equação de estado de gás
ideal e peso molecular μ
constante,
θ mede a temperatura. Finalmente, nesse
caso, o fator de escala radial é dado por
 |
(16) |
As condições de contorno
e
para
se traduzem em
e
. Se o índice
politrópico
e a densidade central
forem dados,
podemos integrar a equação de Lane-Emden (equação 9)
numericamente do centro até uma distância
onde
.
Todas soluções da equação de Lane-Emden têm θ caindo a zero em algum valor finito de ξ=ξ1. Este valor, ξ1,
pode ser convertido ao raio da estrela pela relação R*=anξ1, onde escrevemos a=an para ressaltar que a
é diferente para n diferente.
Chamando portanto
a variável radial onde
para
, obtemos para o valor do raio
:
![$ R = a\xi_1 = [\frac{(n+1)P_c}{4\pi G \rho^2_c}]^\frac{1}{2} \xi_1$](img45.gif) |
(17) |
Dessa forma, especificando
K, n e ρ, ou Pc,
obtemos o raio R.
Solução analíticas existem para
n=0, 1 e 5. Soluções
numéricas precisam ser obtidas para um valor de
n geral.
A solução para n=0
corresponde a uma esfera de densidade constante,
e
 |
(18) |
com
.
Nesse caso
 |
(19) |
Para n=1 a solução
é a função sinc
 |
(20) |
com
. A densidade é dada por
e a pressão por
.
O polítropo para n=5 tem uma densidade central finita, mas o raio
é ilimitado
![$ \theta_5(\xi) = [1+\xi^2/3]^{-\frac{1}{2}}$](img57.gif) |
(21) |
com
. Apesar de ter raio infinito, o polítropo
contêm uma quantidade de massa finita. As soluções com
também
são infinitas em raio, mas contém também massa infinita. O intervalo de interesse, portanto, está limitado para
.
A massa contida em uma esfera de raio r
pode ser obtida pela equação
da continuidade da massa
 |
(22) |
Em termos de
, obtemos
 |
(23) |
Pela equação de Lane-Emden (equação 9),
podemos substituir
por
 |
(24) |
eliminando o fator
e a própria integral, obtendo
 |
(25) |
onde
significa calcular
no ponto
. A massa
total é dada por
e
 |
(26) |
Com alguma álgebra, pode-se chegar a
Se a equação de estado for de um gás ideal
Para cada valor de
, podemos obter
em função de
e
:
![$ K = [\frac{4\pi}{\xi^{n+1} (-\theta')^{n-1}}]^{\frac{1}{n}}_{\xi_1} \frac{G}{n+1}M^{1-1/n}R^{-1+3/n}$](img80.gif) |
(31) |
Note que se n=3,
depende somente de
.
Uma outra quantidade útil é a densidade média
 |
(32) |
Os valores de
que nos interessam são n=3/2,
para o caso de um gás completamente degenerado mas não
relativístico,
, que também
é o caso de um gás ideal completamente convectivo,
e
para um gás totalmente relativístico
.
As soluções numéricas nestes casos estão listados na
Tabela (1).
Tabela 1:
Resultados para polítropos com n=0 a 4,5, com Θ
n=ξ
12(dθ/dξ).
| n | ξ1 | Θn | ρc/⟨ρ⟩ | Γ2 |
| 0 | 2,44949 | 4,89898 | 1,0 | |
| 1 | 3,14159 | 3,14159 | 3,28987 | 2,0 |
| 1,5 | 3,65375 | 2,71406 | 5,99071 | 5/3 |
| 2 | 4,35287 | 2,41105 | 11,40254 | 3/2 |
| 3 | 6,89685 | 2,01824 | 54,1825 | 4/3 |
| 4 | 14,97155 | 1,79723 | 622,408 | |
| 4,5 | 31,8365 | 1,73780 | 6189,47 | |
n=1,5, Γ
2=5/3 é adequado para gás monoatômico ideal, completamente convectivo, ou degenerado não relativístico.
n=3,0, Γ
2=4/3 é adequado para
modelo padrão de Eddington, ou degenerado ultra relativístico.
Note que, para polítropos, o
n e o Γ
2 se referem a toda a estrela e não ao índice local.
Um polítropo com a massa e o raio do Sol e n=3 tem
ρ
c=7.65×10
4 kg/m
3
e
P
c=1.25×10
16 N/m
2,
enquanto um modelo do Sol tem
ρ
c=1.52×10
5 kg/m
3
e
P
c=2.34×10
16 N/m
2.
Exceto para o envelope convectivo, um polítropo com n=3 é uma representação razoável do interior do Sol, e era chamado de modelo padrão de Eddington.
Um gás completamente degenerado
mas não-relativístico
pode ser representado por um polítropo de ordem
. Além disso,
a comparação
da relação entre pressão e densidade de um
polítropo
(equação 4)
com a equação da pressão
degenerada não-relativística
(equação 1)
mostra que
 |
(33) |
Como o valor da constante K dado pela
equação (31),
com o valor do coeficiente θ′
dado pela Tabela (1), obtemos
 |
(34) |
Substuindo (33) em (34) obtemos
a relação massa-raio das anãs brancas:
 |
(35) |
Vemos que para um gás completamente degenerado mas nao relativistico, o raio é menor quanto maior
for a massa e, pelo princípio da incerteza, maior é a velocidade dos
elétrons.
Para o limite
completamente degenerado e relativístico, encontramos
 |
(36) |
Portanto, trata-se de um polítropo com
.
Usando a constante K
dada pela equação (31),
com o valor do coeficiente θ′
dado pela Tabela (1) nos dá
 |
(37) |
ou
 |
(38) |
que é a massa limite de Chandrasekhar, a maior massa
que uma anã branca pode alcançar, pois neste caso a velocidade
dos elétrons é igual à velocidade da luz!
Para estrelas de altíssima massa, a pressão de radiação domina.
Calculemos quando a pressão de radiação é igual à gravidade
local; para qualquer valor de radiação acima desse limite, não
haverá equilíbrio hidrostático, havendo excessiva perda de massa.
Pela equação do equilíbrio hidrostático, substituindo a
pressão total pela pressão de radiação:
 |
(39) |
A equação do transporte radiativo é dada por
 |
(40) |
e a pressão de radiação por
 |
(41) |
Portanto, derivando a equação (41) em relação a
, obtemos
 |
(42) |
ou seja, podemos escrever a equação (40) como
 |
(43) |
Substituindo o último termo pela equação (39), obtemos
 |
(44) |
chegando-se ao limite de Eddington, que representa a maior luminosidade
que uma estrela de massa
pode ter em equilíbrio
hidrostático:
 |
(45) |
Como para altas temperaturas a opacidade K
é dominada pelo
espalhamento de elétrons,
,
podemos estimar, para X=0,7:
 |
(46) |
Na verdade, se a luminosidade for alguns décimos da luminosidade
de Eddington, a pressão de radiação será tão intensa
que haverá perda de massa significativa.
Se dividirmos a
relação entre a massa e a luminosidade na
seqüência principal
pela equação (46) obtemos
ou seja

para
Esta é a maior massa para uma estrela na sequência principal.
Sir Arthur Stanley Eddington (1882-1944)
(1929, A Constituição Interna
das Estrelas), já propôs que as
estrelas acima de uma certa massa sofreriam pulsações
que as tornariam instáveis, limitando suas massas.
O limite derivado acima, com a opacidade dada por
espalhamento de elétrons, é maior do
que o observado, pois o vento é dominado pela opacidade
das linhas metálicas
[Henny J.G.L.M. Lamers (1941-)
& Edward L. Fitzpatrick, 1988,
Astrophysical Journal, 324, 279].
Definindo β=Pgás/P, P=Pgás+Prad, β=1-Prad/P,
Modelo padrão de Eddington, n=3, e
peso molecular μ.
| μ2M/M⊙ | β |
| 1,0 | 0,9970 |
| 2,0 | 0,9885 |
| 5,0 | 0,9412 |
| 10,0 | 0,8463 |
| 40,0 | 0,5066 |
É interessante notar que embora as estrelas tipo O sejam intrínsecamente
mais luminosas, como a maior parte da radiação é emitida no ultravioleta,
as estrelas A7 supergiantes são mais luminosas no visível.
Note também que durante a seqüência principal, o vento de uma estrela
de 100 M⊙ contribui cerca de 2×1051 ergs,
mais do que os cerca de 1051
ergs despejados no meio
interestelar por uma supernova tipo II.
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