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Energia Nuclear de Ligação

A energia total necessária para separar um núcleo em seus prótons e nêutrons pode ser calculada a partir da energia nuclear de ligação. Para um núcleo com Z prótons e (A-Z) nêutrons, onde A é a massa atômica,
Eligação=[Zmpróton+(A-Z)mnêutron-mZ,A]c2
O gráfico mostra a energia nuclear de ligação total dividida pelo número de prótons Z e nêutrons = número de núcleons A, ou seja, a energia de ligação por núcleon. Esta é a quantidade usada para descrever reações nucleares, já que o número atômico muda de elemento para elemento, e mesmo de isótopo para isótopo, e a energia total depende deste número.
binding
O máximo da curva ocorre para o Ferro, cujo número de massa é A=56, em unidades de massa atômica - junto com 62Ni e 58Fe.

A queda da energia de ligação por núcleon para números de massas maiores que 56 indicam que estes núcleons são mais compactados formando dois nuclidios de massa intermediária, em vez de um único nuclidio de alta massa. Em outras palavras, para elementos com massa acima do Fe, energia pode ser liberada pela fissão nuclear do nuclidio de alta massa em dois nuclidios de massa intermediária. A fissão foi descoberta em 1938 por Otto Hahn (1879-1968), Fritz Strassmann (1902-1980) e Lise Meitner (1878-1968).

O aumento da energia de ligação para baixos valores de número de massa, ao contrário, nos indica que energia será liberada se dois nuclidios de baixa massa se combinarem, formando um único nuclidio de massa intermediária. Este processo é chamado de fusão nuclear. Uma bomba de hidrogênio, contruída pela primeira vez em 1952, funde deutério e trítio, formando hélio e liberando um nêutron e 17,6 MeV de energia.

fusao
O deutério, isótopo do hidrogênio com um nêutron, foi descoberto em 1931 pelo químico americano Harold Clayton Urey (1893-1981).

O radioisótopo trítio do hidrogênio, com massa 3,014 u.m.a, foi produzido em aceleradores em 1932 por Lord Rutherford [Ernest Rutherford (1871-1937)], Sir John Douglas Cockroft (1897-1967) e Ernest Orlando Lawrence (1901-1958), e foi caracterizado por Luis Walter Alvarez (1911-1988). Sua vida média é de 12,35 anos, decaindo por emissão de um elétron em He3 e liberando 18,6 KeV de energia. Na natureza ele é produzido pela colisão de raios-cósmicos com nêutrons do ar e trazido para a superfície da Terra pela chuva.

Queima termonuclear e Degenerescência dos Elétrons
Processo
Termonuclear
Massa na
Sequência Principal
Necessária para a Queima
(M)
Temperatura
de Ignição
(K)
Densidade
Aproximada
(g/cm3)
Elétrons
Degenerados
para Densitidades
Maiores que
(g/cm3)
Queima de Hidrogênio
4H→He
0,08 4 × 106 10-102 ~103
Queima de Hélio
3He→C
C+He→O
0,4 120 x 106 103-106 ~105
Queima do Carbono
2C→24Mg*23Na+p→24Mg
20Ne+4He
8 600 × 106 105-108 ~107
Queima de Neônio
Ne→O+He
Ne+He→Mg
∼10,5 1,2×109→kT=0,1 MeV >107 ~109
Queima de Oxigênio
O+O→32Si*31P+p,28Si+He
∼10,5 1,5×109 >107 ~109
Queima de Silício
Mg+He
Si+He→S
S+He→
+He→40Ca,44Ti,48Cr,52Fe,56Ni
fotodesintegração
∼11 3×109 >107 ~109

Síntese de Elementos Pesados

A nucleosíntese dos elementos por sucessivos estágios de fusão termonuclear termina nos elementos do grupo do ferro já que a energia de ligação por núcleon é máxima para estes elementos. Pode-se portanto entender a abundância relativa dos elementos leves em termos dos estágios de queima nuclear.

Os elementos mais pesados do que o grupo do ferro são formados por exposição de núcleos leves a um fluxo de nêutrons, mesmo em temperaturas moderadas. Os nêutrons, por serem neutros, não precisam vencer a barreira Coulombiana dos íons. Duas reações que produzem nêutrons são: $ ^{13}{C}(\alpha,n)^{16}{O}$ e $ ^{22}{Ne}(\alpha,n)^{25}{Mg}$. Quando um íon captura um nêutron, ele se torna um isótopo do mesmo elemento, com uma unidade maior de massa atômica:

$(Z,A)+n \longrightarrow (Z,A+1) + \gamma$

Se o núcleo $ (Z,A+1)$ for estável, ele poderá capturar um novo nêutron e assim por diante. Se o núcleo for radioativo, ele poderá capturar um novo nêutron antes ou depois do decaimento β (emitir um elétron). Esta questão distingue entre as duas cadeias principais de capturas de nêutrons:
B2FH
Esta nomenclatura foi introduzida em 1957 por Eleanor Margaret Peachey Burbidge (1919-2020), Geoffrey Ronald Burbidge (1925-2010), William Alfred Fowler (1911-1995) e Sir Fred Hoyle (1915-2001). (1957, Review of Modern Physics, 29, 547). George Wallerstein (1930-2021) et al. (1997, Reviews of Modern Physics, 69, 995) atualizou os cálculos, com novas observações, dados nucleares e modelos.
Burbidge et al. 1957
Abundancia Solar
abundancias
Abundâncias solares: os símbolos fechados são de acordo com a compilação de Edward Anders (1926-2025) & Nicolas Grevesse (1989, Geochimica et Cosmochimica Acta, 53, 197), e os abertos de Alastair Graham Walker Cameron (1925-2005) (1982, Essays in Nuclear Astrophysics, ed. Charles A. Barnes, Donald Delbert Clayton (1935-2024) & David N. Schramm (1945-1997), Cambridge, p. 23). Nota-se claramente que os elementos com números pares de prótons e nêutrons têm maior abundância.
Uma determinação das abundâncias solares é Nicolas Grevesse, Martin Asplund (1970-), A. Jacques Sauval (1937-2023) & Pat Scott (2010, Astrophysics & Space Science, 328, 179), obtendo X=0,7380, Y=0,2485 e Z=0,0134, resultando em Z/X=0,0181, um pouco menor que os canônicos 2%. Levando em conta a difusão na base da zona de convecção, encontram a composição primordial de X=0,7154, Y=0,2703 e 0,0142.
Lodders
Uma revisão de 2020 da abundância solar de Online Oxford Research Encyclopedia of Planetary Science.
A reação $ ^{12}$C$ (p,\gamma) ^{13}$N$ (\beta^{+},n)^{13}$C$ (\alpha,n)^{16}$O domina a produção de nêutrons nas camadas externas, de acordo com Roberto Gallino (1939-2024) et al. (1998, Astrophysical Journal, 497, 338). Durante a queima de hélio o processo s (slow) de lenta captura de nêutrons, produzidos nas reações com 13C, 13N e 22Ne, ocorre em estrelas massivas, produzindo os núcleons até o chumbo. Para as estrelas de massa entre 1 e 8 MSol um forte processo s ocorre por interação entre as camadas que queimam hidrogênio e hélio.

A abundância solar dos elementos s é devido à evolução química da nossa Galáxia, que mistura as perdas de massa de várias gerações de estrelas, nascidas com composições químicas diferentes e, portanto, com diferentes padrões de núcleos s gerados. Os modelos calculados com as teorias de convecção atuais têm sido inadequados para reproduzir as observações dos isótopos de CNO nas estrelas gigantes vermelhas e grãos de poeira circunstelares.

O elemento radiativo tecnécio 99Tc43, com uma meia-vida de 210 mil anos, é um dos elementos formado pelo processo s, e foi detectado nas estrelas já em 1950. Urânio 238U92, com meia-vida de 4,5 bilhões de anos, Urânio 235U92, com meia-vida de 700 milhões de anos, e Tório 232Th90 e seus vários isótopos, são formados pelo processo r. Overshooting e hot bottom burning (queima na base da zona de convecção que atinge a camada queimando H no AGB de estrelas de 4 a 5 M) têm mostrado melhores resultados. Mas as incertezas em algumas taxas de reações nucleares também levam a incertezas nas taxas de produções de certos elementos.

Na evolução de estrelas isoladas, aproximadamente metade dos elementos mais pesados que o Fe são produzidos pelo processo s. Os elementos até A=90 são produzidos principalmente durante a queima de He e C em estrelas massivas, enquanto que a maior quantidade, com 90 < A < 204, são formados por estrelas de até 3 massas solares no AGB (Ramo Assintótico das Supergigantes). No artigo de Chiaki Kobayashi, Amanda I. Karakas e Maria Lugaro de 2020 (2020, Astrophysical Journal, 900, 2, id.179), eles levam em conta a produção pelos processos s e r, para diferentes metalicidades iniciais.

Amanda I. Karakas faz uma revisão em seu artigo (2019, Nucleosynthesis in stars: The Origin of the Heaviest Elements, IAUS, 343, 79K)

SNIa
Umberto Battino et al. 2025, Trans-Fe elements from Type Ia Supernovae. I. Heavy element nucleosynthesis during the formation of near-Chandrasekhar white dwarfs, publicaram modelos de SNIa, causado por acréscimo de massa em uma binária com anã branca de CO próximo à massa de Chandrasekhar, ou a coalescência de duas anãs brancas, mostrando que grande parte do Fe existente nas estrelas vem destas explosões, já que nas SNII, que vem de estrelas massivas, os elementos do grupo do ferro são majoritariamente destruídos na explosão da supernova. Nos modelos de coalescência, calculados com o MESA, o plasma se torna enriquecido de partículas α pela reação 12C(12C,α)20Ne. As α são capturadas por 22Ne(α,n)25Mg, liberando muitos nêutrons (∼1013 nêutrons/cm3), levando a um aumento de 800 a 3000 vezes a solar nos elementos acima do ferro.

Discutiremos os resultados dos modelos de evolução estelar e sua complexa nucleosíntese após concluir as condições físicas, como a perda de energia (refrigeração) por emissão de neutrinos e de áxions.


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